Passei grande tempo da vida
esperando que alguém me dissesse
o que eu tinha que fazer

Era como se deus
inflamasse meu destino
e colocasse
fogo vivo dentro de mim

Uma marionete excêntrica
experimentando todos os gozos
vivia feliz
sem nenhuma dúvida

No meu tempo de menino
era diferente
não precisava saber
o que ia fazer

Estava em fluído bom
vasculhando o tédio
à procura de qualquer bem-estar

Lembro que passava horas
deitado dentro de um buraco
entre dois sofás por que sentia
que eles me abraçavam
encontrava o amor ali.

Já um pouquinho maior
descobri
Os braços dos homens
e das mulheres

Percebi que os homens
não prestam para abraçar
são ásperos e duros,
difícil sentar
como deitar em pedra

Nas mulheres encontrei
o melhor leito
ajustar-se como girassol
sob o corpo suave da mulher

E os cabelos
é um espaço para sonhar
soma e mania de afetos
cafuné

Amortalhar a esperança
de viver o ócio
foi meu único
e verdadeiro erro

Passei tanto tempo
sem abraçar
que meu corpo
começou a criar ferrugens

Meu coração errante
e meu olhar não conseguia
ver alem das armaduras

Aticei fogo e forjei
os meus amores
para que eles
matassem seus impulsos

E me tornei
um terno sóbrio de afazeres
uma máquina sórdida
movida a sombra
preciosista do tédio

A presença deste estranho
me torturou
comecei a perceber
que tinha perdido
meu mestre de infância

Via em mim
um rascunho da beleza
e deslizava em sussurros
de rancor ao dormir

Vozes entravam em mim
deixando-me surdo
estava estrangulado
pelas serpentes
e me picava sedento
O veneno da mente
desejando estrangular
o meu próprio ser

Faze-lo de mentira
faze-lo de nada,
torna-lo um pedaço
de qualquer coisa
impregnado dos outros
entregando-me àqueles
que me desejam
como um objeto de gozo

Deliciei-me
em esquecimento
de mim mesmo
e fui orgasmos
e plenitude
explosões vorazes
pulsações
sem lamuria
um elo
que carcomia
o meu interior
em salitre

Formado de caras, gritos
e olhares de repreensão
por tamanha liberdade
de não ser
ou de ser um adjeto perfeito

O vir-à-ser em potencia
um tornar-se em tudo e todos
uma imitação freqüente

Por isso parei de cantar
Os meus sonhos, esqueci
Encantei-me pelas coisas

Descobri uma função confortável
substituí o amor
e percebi no inanimado
a presença de objeto

Existência sublime
cheia de inércia
e traçada em sentidos
objetos criados, cheios, plenos,

Amortizados por nossos olhos
utensílios que poderiam ou não
serem usados

que se mantinha freqüente
com as possíveis almas
dadas a eles

identifiquei
que há muito não canto
meus sonhos
apenas me encanto
das coisas

E poder viver
de forma inanimada e fiel
ser uma coisa,
uma palavra de agrado,
um gesto bonito
aquilo de me sentir
tão bem com as minhas
entranhas

Vieram alguns olhos
e a busca por me fixar
em uma coisa que agrada
que me deixaria em prantos:
o amor

Daí fui louco
procurar um eu
e satisfazer essa coisa

Vi que o meu encanto
despertara num momento
em que eu não prestava atenção

Comecei a procurar a beleza
eu tinha a mania
de me fazer de esquecido

Mesmo fingindo
não poderia viver
sem este olhar
não poderia viver
como coisa sob seus olhos

E o seu tato precisava
de algo quente
então me fiz de gato,
cachorro, cobra e boi

Me fiz de onça
de cavalo
de sapo e por ultimo de ave

Mas nada
deste olhar beirar
a tensão do amor sobre mim

Fui até onde poderia
cercar meu pensamento
ao nada e desejei
me esquecer para sempre

Me transformei em palavra
e ainda esperei algum olhar

Foi aí que comecei
a lembrar daquela escuridão
que havia antes
de me tornar em coisa

E lá dentro
saí a procura
de umas luzinhas
de umas cigarras
e fonemas esquecidos pela terra

Pude sobrepujar
as minhas lacunas
sussurrando
em meus ouvidos
frases que não existiam
e torna-me sentido
sem manifestar forma.

Por que meu ventre
abarcava as minhas lacunas
e não feriam meu umbigo
e não sentia dor
vontade de busca
de superar nada

Estava objeto
único ser
sobre a felicidade
de ser palavra
algo infinito e invisível

Veio um pequeno choro

Por que eu fui dizer aquelas coisas

então tudo se juntou
em apenas uma frase
e eu voltei ao inicio

Por que eu fui dizer aquelas coisas

Hoje calo, sonho,
hoje sou, nasço
apenas a mão
deslizando no meu ventre
ali perco todas as batalhas
e desligo a memória

Para aprender amar
me tornei em palavra
deixei de ser coisa
e insisto no olhar
que me inspirou estes versos:

Você é um resumido
de vida que devoro.
um projeto de palavra
amor palpável
Lamento, nossos corpos
nunca se tocarão
estamos imersos
em viver de esquecimentos

Somos especialistas
em nos reinventar
fazermos tédio
tornarmos sóbrios
poder amar.

Você é um resumido
de vida que devoro
É minha fome
que nunca acabará.

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Paulo Tiago dos Santos

Nascido em Vitória da Conquista, "carrega água na peneira" desde pequeno, de 1900 e... esqueci...

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