Deviam estar ali há dias
Ou talvez tenham aparecido logo após o banho de sol
Sei que não parecia grave aqueles pequenos pontinhos de pus
um no cotovelo, outro no suvaco e um no bumbum
passei alguns dias contemplando-os com algum medo ou pena de estourá-los ]
prometiam, pelo tanto que haviam crescido em uma semana
resolvi que iria cultivá-los, sem qualquer remorso pelo sútil e pútrido que desenhava em minha pele, minha superfície
Em duas semanaa estavam vistosos. Aquela latência purulenta e a sua vermelhidão refulgiam à eminência de uma erupção
Foi quando comecei a amar os meus furúnculos
Logo eles começaram a inchar e mobilizar grandes áreas ao redor. Meu ante braço, pois, pesava como um pavilhão
E inoculei durante esse tempo a função da minha mão esquerda a defender-se das quinas e asperezas quaisquer que avançavam ao seu campo, nada poderia atingir àquela desordem, ela me comovia
Assim, uma leve febre esquentou as temperas, o que me trazia um sono e zonzo, rememóriava todos os meus sentidos, eu ficava convalescido
Todos me reparavam, porém, com um ar de veemência e piedade, e mesmo reprovação, pelo meu estado, aparentemente decadente, frágil, mordaz
Eu, há talvez um mês, observava aquela evolução no meu corpo, deliciosamente me pesava o braço, um suor frio me escorria o pescoço e me deixava tocar levemente o pedaço de carne ondulante da grande inflamação que entornava
Devo admitir que nessa hora minha língua salivava e me exasperava em estourar os furunculos
Então, um dia, deitado na rede, um pequeno fluxo de líquido esverdeado começou a fluir, levemente acompanhado por um fio de sangue
Não havia mais o que resistir à erupção; apertei com gosto o inchaço e vi saltar um grosso véu de pus e sangue
Percebi que havia nas extremidades um grande avanço da inflamação e revolvi minha carne para repuxar e mais pus saia. Muita pus, no meu braço.
Sai correndo e fui mostrar à Edu, meu amigo. Ele viu e falou, pasmo, Meu deus Paulo!
Eu ria, contente, a cada jorro de lodo que vazava do meu corpo, um sensação de drástica evacuação de vá lá, uma lama, uma louca tosse
Não conseguiria conter mais por nenhum tempo, no banheiro, me posicionei e apertei minhas nádegas, ai...
Dessa vez, além do jorro purulento, uma coisa gelatinosa e folheada aparecia, como uma cabeça, na pequena fissura da pele
Apertei, apertei e, com sutileza, consegui expulsar, inteiro, uma coisa orgânica, com um grande nódulo ao meio e as pontas finas, gelatinosas, uma coisa estranha, envolta em pus e sangue.
Fiquei com aquilo na minha mão olhando por um tempo. Sufocante e sudorético, joguei na privada.
Levantei e passei o resto da noite revolvendo a ferida com algodão.
Olhava para o terceiro funrunculo com alguma pena. Não sei se pelo temor de explodi-lo e novamente ferir-me, ou de reconhecer tanta sujeira que haveria de sair dali, ou imaginando se haveria de crescer ainda mais, ou pela expectativa que me causava aquela sensação do que vinha de dentro do meu corpo, nada, vezes nada, vezes nada. Uma coisa verde e podre, a que com certeza virei um dia a me transformar.
Criava, pois, um pedaço de cadáver, uma não vida, um despojo orgânico e imprestável.
Paciente, esperei que sozinho estourasse, molhei algodão com álcool e espremi. Não havia mais gozo, tão pouco nojo, talvez urgência e cansaço.
Alguns dias depois, num relance, meu braço lembrou-se e fugiu de uma cadeira, como quem tem medo de explodir.
Era somente corpo, nada mais. Porem, já sem nenhum furúnculo. E a consciência do miraculoso, era clara e leve, daquilo que nem beirava as minhas verdadeiras aspirações.
Já podia voltar a dançar. A ausência daquilo que me incomodava, que morava em mim e de mim saiu, espulso pelo meu próprio organismo, me deixava tomado de um pezar marinho, como a claridade da água sob a areia, revolvida a insuficiência do lodo.
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