As Janelas
Daqui da janela eu vejo o meu mundo.
Flores brancas na sacada
Interno e desfigurado, zarolho colibri.
Amanha terá manha e serei feliz
com tudo isso.
Daqui não há lamurientos.
E as meninas
do outro lado da rua,
vejo-as assustadoramente belas.
E minha paixão por esse encanto
faz dum aceno
uma tarde inteira de saciedade.
Aqueles meninos desordeiros
não deixam de extravasar
às vacilações do espírito inquieto.
Outro dia, fiquei sabendo,
de passagem
quase matam um cara à tapa.
Passam por aqui, gritam e uivam
iludem, procuram conversa
e fala e dês-fala.
Vejo-os daqui de cima.
e seguro, desdito essa farsa.
Maravilha daqui da janela.
Isso pra mim já basta.
Você aí. Boa! Eu aqui.
E todo mundo que passa.
São três Sois se eu quiser
Vagões, monstros celestiais
Ombros erguidos no bronze
Memoriais e nada, nada, nada
Chuvas se tornando em cachoeira
Muros de efeitos verticais
Homens quase sempre ridículos
E carros, praças, migalhas.
Pedidos que não pude
desprezo, onde me enforco.
A vida inteira que passa
daqui da janela
a moldura
dia-a-dia dilata-se
infere movimento uterino
e percebo que poderia, talvez,
ir até a varanda.
Daqui da janela eu vivo o meu mundo.
Meus passos, entrego ao esquecimento
e desintegro a distancia
que impus ao equilíbrio.
Conseguiria tocar
nas lembranças mais amargas
assentar as penúrias involuntárias
os desertos gelados de medo
e segredando a esses ventos que passam
o mundo atormentado em soles
quentura e consciência úmida
fervilha em desassossego
a essência da sabotagem.
Entrego meu mundo às janelas
se consigo chegar na saudade.
Pulando alto, decido mudar, vaidade.
Recinto, num forte delírio com fogo sóbrio.
Descanso e invejo
os que passam atormentados por tanto sentido.
Um salto e as vertigens dos começos.
Contemplo o inverno e nada desejo.
O vazio faz o redemoinho infernal
Qualquer faísca explode, fogueteiro
a vontade insatisfeita de amar.
No dia que abrir a janela
com certeza vou saltar.
Daqui do meu mundo eu vejo as janelas
em frases e poucos poemas
que chovem em pequenos versos
cada passo.
Soletro incessante às avenidas
e tantos quilômetros rodados
de fatos e vozeirões encanecidos
vasos e tropeços das encarnações
maravilhas sedimentadas nas retinas
Aviamentos de cedas, cortinas
é que fazem das janelas
costuras em pontos soltos
para que possa passar por meu corpo
para que possa ser manto e cobertor
e todos os outros brinquedos do passado.
Como gloria em tapetes adornados de vôos
abro as janelas do meu mundo
acompanho os passarinhos sem desvelo
me entrego ao prazer do céu.
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