Não tenho mais nada a fazer com o tempo
este trauma da pele naufragada
esta vastidão de sentidos
meu penar sobre a terra

Todas as canções foram esquecidas
as minhas lamentações afogadas
não há nada mais a fazer
apenas ninar o novelo de vida
e desfazer a colcha de minhas ilusões

Testemunho todos os dias que passei
todas as palavras ditas e os carinhos
minha voz plena por ser ouvida
soa como um choro sedento e maculado

Lembranças guardadas numa caixa velha
isso tudo são lembranças guardadas
numa imprestável caixa oca e velha
que meus avós já não sabem contar
por que estão mortos, meus avós

Minhas mãos não têm tantos calos
coisas que eu possa me gabar
bem sei que nunca fui disso, calado
pouco avançou sobre mim a pele alheia

Louvo antes a morte e a palavra
nenhuma guardada no colchão
todos os sonhos feito fantasmas
e minhas horas passadas em vão
pouco me valem e me servem

Guardo na gaveta minhas honras
guardo na gaveta as feridas
guardo minha infelicidade silenciosa
tal malícia acumulada nos dias

Tento sorri e não consigo
tuas lisonjas são distantes e cega
e meus começos todos vagos
me demoro em pensar que a vida
pode esperar a eternidade que vigora

e meu choro seco e pálido
é um sinal fiel de minha desesperança
um urro das cinzas da minha alma
ampla escuridão de silêncios

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Paulo Tiago dos Santos

Nascido em Vitória da Conquista, "carrega água na peneira" desde pequeno, de 1900 e... esqueci...

Visualizações de páginas da semana passada