A PEÇA II

O problema é que ele me deixou. Fiquei pasma, a porta do apartamento na cara. Não adiantou chorar, lamentar, o viado não queria conversa. Ingrato, depois de anos, anos, tudo que fiz por ele. Eu, sem alma nem piedade que me socorresse naquela cidade. Não tive outra opção a não ser vir pr’aqui. Na verdade, hoje vejo que eu era um refém, que o melhor que poderia ter feito era já ter ido embora há muito tempo. Acabei saindo muito tarde e com as duas mãos na frente. A culpa foi minha, claro. A quem mais poderia olhar num momento como este e em tudo o que passou? Senão pelo meu desejo de viver intensamente e saborear o impossível? Era isso que buscava, por isso não me arrependo inteiramente deste amor perdido, frustrado e superficial, como a vida que havia construído naquele lugar, não havia dúvida, deveria ter saído pelas janelas, voando, o mais rápido possível. Mudar era, senão um remédio, uma febre alarmante da minha decadência. Sai da casa dele umas 10 da noite, peguei o metrô e fui para a rodoviária. Era estranhamente claro o que tinha que fazer, tão óbvio, como se não tivesse passado 20 anos remoendo essa idéia de voltar para casa. Peguei um ônibus às 6 da manhã e parti de São Paulo em direção à Planalto. Ainda estava inebriado pela desdita com meu amor, me arrependo de ter feito uma ligação para ele, como sou bobo. Estava com a visão fosca pela ressaca daquela vida que levava, percebi que não me movimentava há muito tempo, ainda assim, me deixei levar pela preguiça da viagem, tornando minhas lembranças um poema. Este estado me exonerava de ter que pensar no encontro que me aguardava e que nada daquilo que eu carregava faria sentido neste lugar.

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Paulo Tiago dos Santos

Nascido em Vitória da Conquista, "carrega água na peneira" desde pequeno, de 1900 e... esqueci...

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