Tudo bem, eu conto. Fazia anos que eu desejava montar este trabalho. Era uma idéia de um texto que me acompanhava desde a adolescência. O motivo? Não consigo lembrar do fio, de onde começou, mas, depois de um tempo, ela já me soava como algo que existia antes de mim e que parecia estar morto. O problema é que a idéia voltou num momento em que as coisas não estavam tão favoráveis, sacou? E me veio como uma obrigação, como vaticínio. Não havia como fugir de nada naquele momento, na verdade tudo estava como que revirando sobre a minha cabeça, cada centímetro de ressentimento, cada pedaço de pele corrompida pelas mais torpes das amizades, pela vulgaridade excessiva dos salões e festas e por tudo que eu tinha me obrigado a esquecer, deixar de lado, apodrecendo, tudo havia ficado do lado de lá da cerca de casa, quando meu pai ameaçou a minha existência da maneira mais cruel que alguém poderia fazer. Na verdade, não é nada disso que eu queria dizer. A idéia... não importa muito a idéia, a montagem de uma peça é feita de pedaços de afetos e dores. Quando cada centímetro do espaço está preenchido por uma fina camada de memórias, de vontades, de desejos, de afetação, a ação cênica vivida pelo corpo do ator é um simulacro inteiramente avançado do que pode nossa carne, nossa voz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário