Desci do ônibus na BR 116 e atravessei a pista como vertigem de encruzilhada. Planalto é isso, uma grande encruzilhada. Uma cidade feita no centro de uma passagem, um entroncamento de putas, caminhoneiros e mecânicos, e o que resta do mundo se esgueirou nesta cidade. Mas, o que sobra na madrugada das cidades, aprendi, é sempre um reflexo pálido da sua vida mimada, todos os nervos descansam em sono débil e o que sobra são vampiros temerários. Tinha uma leve esperança de que ela havia mudado, minha cidade. Da minha família esperava o pior. Gostaria mesmo de ver a cara que fiz quando encontrei com Roberto, por que ele ficou tão nervoso, tão pálido, eu deveria parecer satanás. Cheguei a casa, na verdade, como um farrapo e não sei o que me deu no momento, uma leve esperança e potência me insurgiram na alma, como se o desespero que me atormentava se resumia numa imagem de gente sampaca, minha gente, tão afundada no seu mundo quanto caranguejo. Estavam diante de mim, meus três irmãos, uma mulher desconhecida e minha mãe, que chorava arbórea em seu canto de sempre, como se pai estivesse presente a olhar para mim. Não havia o que dizer, este silêncio perpétuo é um antepassado que busco em meus sonhos, uma ilusão que tento repetir. Uma sinceridade escaldante diante do que lhe é estranho e ameaçador, a minha imagem parecia irritar a cada inconstância dos meus gestos. Por que você não veio na morte de pai? Um vento fez rosnar levemente em minhas narinas a tensão raivosa do meu pranto, que facilmente ia explodir. Uma resposta insossa, nada me cabe neste mundo, eu sei. Não há também, de minha parte, nada mais a explorar, de todo modo, não custa tentar entender esta gente, minha gente. Mas, um tempo fechado quando ameaça chover pode, sem aviso, desabar em nossas cabeças. Meu irmão Jenival era o velho cagado e cuspido, uma merda. Homem ameaçador de reveses amparáveis, por nossa pena irresistível. Gritava como um cão, em cada solo da sua voz, atrás, soava rosnando uma besta ruidosa a lamentar. Um guizo ríspido que me provocou os nervos. Choro. Não há nada o que dizer. Nunca estive tão presente, nunca estive tão completo, todos aqueles olhares tristes, que não me esperavam, agora era o meu mundo a suportar. Até esquecer de mim mesmo novamente. Estou doente.
Não tenho mais nada a fazer com o tempo
este trauma da pele naufragada
esta vastidão de sentidos
meu penar sobre a terra
Todas as canções foram esquecidas
as minhas lamentações afogadas
não há nada mais a fazer
apenas ninar o novelo de vida
e desfazer a colcha de minhas ilusões
Testemunho todos os dias que passei
todas as palavras ditas e os carinhos
minha voz plena por ser ouvida
soa como um choro sedento e maculado
Lembranças guardadas numa caixa velha
isso tudo são lembranças guardadas
numa imprestável caixa oca e velha
que meus avós já não sabem contar
por que estão mortos, meus avós
Minhas mãos não têm tantos calos
coisas que eu possa me gabar
bem sei que nunca fui disso, calado
pouco avançou sobre mim a pele alheia
Louvo antes a morte e a palavra
nenhuma guardada no colchão
todos os sonhos feito fantasmas
e minhas horas passadas em vão
pouco me valem e me servem
Guardo na gaveta minhas honras
guardo na gaveta as feridas
guardo minha infelicidade silenciosa
tal malícia acumulada nos dias
Tento sorri e não consigo
tuas lisonjas são distantes e cega
e meus começos todos vagos
me demoro em pensar que a vida
pode esperar a eternidade que vigora
e meu choro seco e pálido
é um sinal fiel de minha desesperança
um urro das cinzas da minha alma
ampla escuridão de silêncios
este trauma da pele naufragada
esta vastidão de sentidos
meu penar sobre a terra
Todas as canções foram esquecidas
as minhas lamentações afogadas
não há nada mais a fazer
apenas ninar o novelo de vida
e desfazer a colcha de minhas ilusões
Testemunho todos os dias que passei
todas as palavras ditas e os carinhos
minha voz plena por ser ouvida
soa como um choro sedento e maculado
Lembranças guardadas numa caixa velha
isso tudo são lembranças guardadas
numa imprestável caixa oca e velha
que meus avós já não sabem contar
por que estão mortos, meus avós
Minhas mãos não têm tantos calos
coisas que eu possa me gabar
bem sei que nunca fui disso, calado
pouco avançou sobre mim a pele alheia
Louvo antes a morte e a palavra
nenhuma guardada no colchão
todos os sonhos feito fantasmas
e minhas horas passadas em vão
pouco me valem e me servem
Guardo na gaveta minhas honras
guardo na gaveta as feridas
guardo minha infelicidade silenciosa
tal malícia acumulada nos dias
Tento sorri e não consigo
tuas lisonjas são distantes e cega
e meus começos todos vagos
me demoro em pensar que a vida
pode esperar a eternidade que vigora
e meu choro seco e pálido
é um sinal fiel de minha desesperança
um urro das cinzas da minha alma
ampla escuridão de silêncios
A PEÇA II
O problema é que ele me deixou. Fiquei pasma, a porta do apartamento na cara. Não adiantou chorar, lamentar, o viado não queria conversa. Ingrato, depois de anos, anos, tudo que fiz por ele. Eu, sem alma nem piedade que me socorresse naquela cidade. Não tive outra opção a não ser vir pr’aqui. Na verdade, hoje vejo que eu era um refém, que o melhor que poderia ter feito era já ter ido embora há muito tempo. Acabei saindo muito tarde e com as duas mãos na frente. A culpa foi minha, claro. A quem mais poderia olhar num momento como este e em tudo o que passou? Senão pelo meu desejo de viver intensamente e saborear o impossível? Era isso que buscava, por isso não me arrependo inteiramente deste amor perdido, frustrado e superficial, como a vida que havia construído naquele lugar, não havia dúvida, deveria ter saído pelas janelas, voando, o mais rápido possível. Mudar era, senão um remédio, uma febre alarmante da minha decadência. Sai da casa dele umas 10 da noite, peguei o metrô e fui para a rodoviária. Era estranhamente claro o que tinha que fazer, tão óbvio, como se não tivesse passado 20 anos remoendo essa idéia de voltar para casa. Peguei um ônibus às 6 da manhã e parti de São Paulo em direção à Planalto. Ainda estava inebriado pela desdita com meu amor, me arrependo de ter feito uma ligação para ele, como sou bobo. Estava com a visão fosca pela ressaca daquela vida que levava, percebi que não me movimentava há muito tempo, ainda assim, me deixei levar pela preguiça da viagem, tornando minhas lembranças um poema. Este estado me exonerava de ter que pensar no encontro que me aguardava e que nada daquilo que eu carregava faria sentido neste lugar.
A PEÇA I
Tudo bem, eu conto. Fazia anos que eu desejava montar este trabalho. Era uma idéia de um texto que me acompanhava desde a adolescência. O motivo? Não consigo lembrar do fio, de onde começou, mas, depois de um tempo, ela já me soava como algo que existia antes de mim e que parecia estar morto. O problema é que a idéia voltou num momento em que as coisas não estavam tão favoráveis, sacou? E me veio como uma obrigação, como vaticínio. Não havia como fugir de nada naquele momento, na verdade tudo estava como que revirando sobre a minha cabeça, cada centímetro de ressentimento, cada pedaço de pele corrompida pelas mais torpes das amizades, pela vulgaridade excessiva dos salões e festas e por tudo que eu tinha me obrigado a esquecer, deixar de lado, apodrecendo, tudo havia ficado do lado de lá da cerca de casa, quando meu pai ameaçou a minha existência da maneira mais cruel que alguém poderia fazer. Na verdade, não é nada disso que eu queria dizer. A idéia... não importa muito a idéia, a montagem de uma peça é feita de pedaços de afetos e dores. Quando cada centímetro do espaço está preenchido por uma fina camada de memórias, de vontades, de desejos, de afetação, a ação cênica vivida pelo corpo do ator é um simulacro inteiramente avançado do que pode nossa carne, nossa voz.
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Paulo Tiago dos Santos
Nascido em Vitória da Conquista, "carrega água na peneira" desde pequeno, de 1900 e... esqueci...