o coração
é o único órgão
que não há cuidado
que lhe assente
irremediavelmente
já nasce doente
Não tenho paciência
para esperar
o tropeço
Prefiro caminhar
mais uma vez
como a primeira e última
me encontro como se sonhasse

como quem festeja as alvoradas!

Estou meio pálido até
com este frio que atormenta
me voltam à memória os poemas

poetas lânguidos, com suas unhas pintadas
poetas malditos e outros queridos
dá saudade dos poemas

e a ansiedade por vivê-la
amante da palavra-transparência
lá donde a palavra começa

muitas faces hão de clamar
terremotos e conchas no mar
não quero dizer mais do que posso

mas, terremotos e conchas do mar
parecem fazer parte do mesmo confronto
porisso, volto a ofertar

pois, agora saquei a parceria dos elos
agora pude ver que palavra-elo
não começa nem termina

explode-palavra
foco de minhas saudades-palavra
coisa morta, hora, amplitude do ser

quero chegar a dizer meus poemas
nos ouvidos das cadelas
como afronta.

daquilo que todo poema é feito
reparti-lo entre os homens
de bom coração

apenas embelezar - o poente - não basta
é preciso senti-lo, por que deixa de ser poente
e se torna contente, risos, ação

quando, soltas as pontas
do que não suporto falar
a repetição, quebra o pote da vida e atiça

a fronte de olhos envenenados
abominável, que transita entre os dentes
daquilo que nem toda palavra é feita

cruza os corpos dos intolerantes
avança as armadilhas do cão
“hora viva e arreviva”

este matráquil, devastador das matas
silêncio nestas horas, nestas horas
é preciso silêncio, nada mais.

e a mentira escapa...
Contento apenas ver
Única e bela, passa, esconde, acolhe-se
Corpo, doces olhos, como beira-mar
Anima meus sonhos
Por que não me convenço
em me completar
planar nos territórios do finito

As velhas formas de amar,
de vagar e criar

quando a atenção se volta
espacialmente, para o que não é interno abismal
Terreno assombroso
historiam dois homens
em meio as aversões dos seus desejos
como que rompem segredos
e deixam-se lacrimejar
pela impotência dos gestos adestrados
suas carícias são tolas e comparáveis
às picadas dos insetos
que atormentam
Hoje sonhei com você
não digo mais nada
Crista a manhã
E estou em solo fértil
Onde minhas amadas
Clamam plenas, seios

Meus pés tocam sem peso
Dançar é o verbo ser
Desfazer-se de um estar
Para um outro refazer

Meus pés tocam leves
Um chão impensado
Um chão de nuvens, luzes
Solo fértil e bem amado

Meus pés em solos férteis
Agregados e bem regados
Quando sambar então direi
De quem é esse cavalo

Que dançando em solo fértil
Grama cresce sempre alva
Limpa as plantas do terreiro
Sobre flores libertado
Antes que mais nada aconteça
Que mais nada aconteça
Nada.

todo discurso feito
duma palavra maldita
compensá-la com um beijo

Afagar as vozes com um poema
E despejá-lo à terra
Por nada, por ficar fazendo pirraça com nossos ais

Como um caminho que é delicioso
que sugere o beijo das perfumarias
Outro que sonha os passos do beijo da amante

E o que degenera as passagens avançadas dos começos
onde as primeiras somas de impressões
foram fazendo-se um pouco atormentadas,

um pouco mesmo, até ficar um menos qualquer
um que toma corpo sobre todos os apelos,
como a vasilha que comporta uma enxorrada de pertubações, liquidificador

Que dia iremos começar a mecher nas verdadeiras armadilhas,
desmontá-las
homem campo de mina
encanto que vi
alma de minhas palavras
sua beleza aprimorada
pelos anos,
gestos de harpa

ah, bom lembrar
viver amor emaranhado
sob sua imagem ideal
e rabiscá-la,
na areia da praia

súplicas cansadas
sua voz permanece
tenho boa razão de estar
desta maneira embriagado
no hálito da deriva

por que nunca me arrefeço
de pensar sobre tudo que é seu
tudo você, sentir a sua passagem
deixá-la partir envergonhada e desviar
a perseverança do meu sorriso

mesmo que saiba, mesmo
tocar os seus cabelos
beijar a sua mão, ouvindo
pequenos sussurros felizes
e sair a rua para caminhar
sonho este que me basta
Tanto tempo vivi
Solfejo as amendoeiras na infância
Transpasso a promessa de um desejo

Marílias foram minha amigas
Paridas, quando em zelo minhas mãos
suas faces alvejavam as tardes, Marissas

Bom vejo, quem me pergunta
Estou bonitinha? Suas tranças embutidas
foram o maior encanto que vi, fascinava

Ah, daí a estar correndo pelos matos
Cantando um sabor de estrada, apresentar
Os bailados do palco e as madrugadas de cenários

Tudo ali tinha borro de mofo, tudo cheirava carmim
Amanhecia na estação e via pombos, meninos
Sentia que trazia alegria, as cidades perdidas de chão

Tudo dava um filme. As rodas do caminhão, as loucas
Os bordões do vendedor, as cantigas e olhos
Todos os olhos que o mundo me anima, a fumigação

um tempo de estrelas no asfalto,
um cancioneiro e uma bailarina,
sua comitiva e três estórias de então...
Como o vazio toma tudo sobre a deslizante amarra de frontes amargas,
sobre o nó,
o tempo imperdoável,
nossas intransigências,
os perdões todos que nos isolam
de um temor supremo,
clarices, aperta o seu seio
sobre meus beijos,
sem vergonha aproxima sim,
sempre, deixar nossas razões
discursar pleno corpo,
vasilhames e potes cheios
de água fresca, num canto da casa,
ou as pernas tortas
daquela velha que eu vi
numa estrada viajando
num fusquinha
numa estrada de roça...
Gosto de imaginar o poema
Antes do tempo do ser
Ficar fazendo bolhinhas
Contar os passos do céu

Prefiro mesmo é sonhar com o poema
Saltar de alturas homéricas
Contar no ouvido da porta
ir de porta em porta

Antes que o gesto fira
o desejo transborde
que os olhos isolem
o que o tempo nunca separa

Minhas mãos alcançam sua pele
eu silencio, as nossas bocas se tocam
versos soam, a trama de começos
sobre seu dorso vertical

Esqueço o poema
o corpo suplanta a palavra
soletro meus dedos
no quintal dos seus poros

quanto prazer poder descer
de minhas lembranças e descansar
e tua pele some, mais uma porta
paraíso de ioiô.

Paulo Tiago dos Santos

Nascido em Vitória da Conquista, "carrega água na peneira" desde pequeno, de 1900 e... esqueci...

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